quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

UMA FLOR VERMELHA NAS PAREDES DO CAIS





Não sei quem és
mas pelos gestos vieste por bem
rasgar o vento com as mãos
a neve dos meus cabelos
e eu cansado de florestas apócrifas
das palavras em bando
comecei a plantar árvores
vi os pássaros regressarem
em acordes
a luz das noites que não dormem

na partilha de horizontes
o amor é revolucionário
voa nos mastros mais altos
garatuja búzios de sons
intervém por causas
muito para lá das utopias
e se levanta resiste
ao pôr do sol
mesmo que os barcos entristecidos
estilhacem
nos espelhos da água
algumas pedras com vida por dentro

registo por um eterno instante
o ar que nos move
pinto com a boca
uma flor vermelha
nas paredes do cais


Eufrázio Filipe

(de novo a partilhar este poema)



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

LÁGRIMA SOLTA






Quando a estátua
deixou de ser estátua

eu vi

uma lágrima solta
nos olhos
da pedra

Eufrázio Filipe

2013

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

SUSPEITE DO QUE PARECE ÓBVIO






A propósito ou não do próximo orçamento de/do Estado recordei um insigne professor que dizia nas suas aulas 

"nada literáriamente mais excitante que uma metáfora"

Na verdade sempre relativa da vida toda a poesia é ficção
pelo que sugiro 

suspeite do que parece óbvio

Eufrázio Filipe


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

ATEAR O CORAÇÃO DAS ÁGUAS






Lá estás à janela
na intimidade redentora
a ler verdades improváveis

lá estás pássaro azul
no longo caminho
que sustenta
a nudez da fala 

lá estás à pergunta
de uma brisa desgrenhada
um belo relâmpago

tu sabes

mesmo quando se rasgam palavras
num sopro de vento
é preciso atear o coração das águas


Eufrázio Filipe



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

LÁBIOS




Demoras-te senhora nestas águas
porque é sempre breve
o instante
das pequenas vertigens

vieste colher os meus lábios
para incendiar uma pedra

na verdade o teu corpo
tão líquido e incerto
na voragem dos destinos inventados
vibra no ritmo das marés
ilumina-se por dentro
num feixe de faúlhas

habita as fendas rema
por onde espumam as salivas

demoras-te senhora
sentada no meu barco 

mas nunca saberás
dos meus lábios uma palavra
sempre que tocar os teus

nem das línguas
o fogo regurgitado
que nos liberta


Eufrázio Filipe
no "Chão de Claridades"