sábado, 18 de novembro de 2017

SOL DE MÃOS CHEIAS






Com tantas pedras partilhadas
aqui estamos soltos
na vertigem da escarpa
a plantar árvores
com vistas para o mar

Aqui neste Outono
para meu espanto
despontam camélias
no bico dos teus seios

um sol de mãos cheias
no trilho  dos pássaros silvestres

e nós desvendamos
caminhos que resistem

como se fossemos livres
e somos
de tão breves


Eufrázio Filipe

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O INICIO DO MAR






Em que chão assenta
o coro polifónico
da chuva miudinha?
em que chão o rio
se desprende
das magras águas?

passo a passo
onde arde na praia
sempre azul
o inicio do mar


Eufrázio Filipe


terça-feira, 7 de novembro de 2017

ROSA FOLHEADA






Amanheci
a desenhar
o teu corpo
a desfolhar
uma rosa

porque não uma rosa?

todas as flores 
se desfolham

também tu Rosa


Eufrázio Filipe
editora Temas originais 
Para lá do Azul


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

SINAIS DE PENAS






Cumprida a colheita
decepadas as videiras
sem lágrimas soltas
na mesa redonda
do alpendre
só há lugar cativo
para os pássaros

timbres
mais leves que as cinzas
sopros de vento
na folhagem desprendida

Aqui em torvelinho
se deitam
os deuses do costume
que não dormem
palavras desalinhadas
sinais de penas


Eufrázio Filipe

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A CADEIRA VAZIA






Em cardume
nos olhos dos peixes
lá estavam os pescadores

Na véspera dos relâmpagos
e outros afectos
dulcíssimos corações
clareavam as noites
e nós só podíamos fazer
o que fizemos

sentámos à mesa
os ausentes
levitámos em voz alta
o sussurro das marés
recolhemos estrelas
no chão das águas


celebrámos a cadeira vazia


Eufrázio Filipe
"Chão de Marés" colectânea 2013/2o16
editora Lua de Marfim